Janelas
entradas de um diário de pandemia
Tenho por princípios nunca fechar portas, mas como mantê-las abertas o tempo todo se, em certos dias, o vento quer derrubar tudo?
Sudoeste, de Adriana Calcanhotto e Jorge Salomão
Antes de começar a publicar os relatos das travessias do doutorado, fiquei pensando em como situar a minha pesquisa para quem ainda não a conhece. Queria contar de onde vem essa vontade de estudar saraus de periferia e slams, poesia e cidade, o que exatamente eu quero aprender e quais caminhos eu vou desenhando.
Isso me fez voltar em 2020, que foi quando esse processo todo começou. Mais especificamente, em março de 2020, período em que a pandemia de Covid-19 chegou fechando portas e janelas. Minha pesquisa, tão afeita à cidade desde o início, se viu então apartada dela.
Mês passado, no entanto, abri um diário daquele ano e consegui perceber a cidade transformada e uma pesquisa que ainda engatinhava piscando em meio à tempestade, tal qual um farol. São essas piscadelas que trago aqui hoje, janelas para um mundo ao mesmo tempo distante e presente.
Ainda me espanto quando penso nas coisas que vivemos coletivamente nos dois primeiros anos da pandemia, nos nossos muitos pesares. Hoje em dia, já não carrego religiosamente um spray de álcool comigo, mas é muito importante abrir as janelas da casa pela manhã. Abri-las, respirar fundo, ver e ouvir a cidade lá fora.
E, escrevendo isso, me vem à cabeça a música poema que abre o texto de hoje, “Sudoeste”, escrita pela Adriana Calcanhotto e pelo Jorge Salomão.
Um lembrete sobre o incontornável?
16 de março de 2020, segunda-feira.
Subo correndo as escadas da FAFICH para não chegar atrasada à primeira aula do doutorado e, quando entro na sala, o professor já havia começado a falar. Sorrio sem graça, aceno com a cabeça e me sento na segunda fileira perto da porta. Depois de fazer algumas considerações iniciais e explicar que nossas leituras serão focadas na Judith Butler, Carlos M. pede que a gente se apresente e diga por que estamos cursando essa disciplina, “Texto, Gênero e Performance”, uma optativa.
No canto direito da sala, um rapaz de cabelos bem pretos comenta que a sua pesquisa não trata de questões de gênero, mas que esse é um tópico pelo qual ele se interessa muito. Pouco depois, uma moça de cabelos cacheados começa a contar sobre sua proposta de tese, essa sim mais afinada com o tema da disciplina. Quando chega a minha vez, digo que as leituras sobre performance poderiam me ajudar na minha pesquisa sobre os saraus de periferia e slams de Belo Horizonte. Baixinho, o professor responde “também acho” enquanto atravessa a sala.
No intervalo, conversas. Fico feliz de descobrir que tenho colegas em comum com a moça de cabelos cacheados, Gracila, que me parece tão simpática. Fizemos a graduação em épocas parecidas, ali mesmo na UFMG, mas ainda não nos conhecíamos. Já o rapaz de cabelos bem pretos, William, fez a graduação e o mestrado em Ouro Preto e acabou de chegar na cidade. Ninguém sabe bem, mas parece que as próximas aulas vão ser interrompidas. As notícias sobre a COVID assustam.
18 de março de 2020, quarta-feira.
01 de abril de 2020, quarta-feira.
Hoje filmei da janela da cozinha uma casa vermelha do outro lado da rua. Ela fica no fundo de um lote não muito largo, mas bastante comprido e lotado de pés de banana, além de alguns de laranja e milho. Filmei essa casa porque na vizinhança temos um galo que eu imagino que more ali, no meio das bananeiras, e com o registro do seu canto eu produzi a primeira prova da minha teoria.
Sempre ouvi galos cantando em Belo Horizonte, independente do bairro em que eu morava: no primeiro, bem suburbano, isso nem era surpresa; no segundo, já classe média caseirona, eu me perguntava de quem ele seria; no atual, ao lado do centro, acho surreal. Isso porque eu moro num conjunto de prédios que fica atrás do trilho do metrô, bastando atravessar a passarela para chegar na avenida do Contorno, bem perto da Praça da Estação. O centro é logo ali atrás e o trânsito é intenso, de gente e de carro. Ouvir um galo aqui prova que isso é possível em qualquer canto da cidade.
Mal sabe o pobre do galinho que eu escuto coisas demais no canto dele, ainda mais nesse tempo de reclusão. Os aviões decolando do aeroporto da Pampulha, o pigarro do seu Geraldo descansando na calçada, os passarinhos do viveiro do seu Irineu, na casa ao lado, o 1207 passando na Ministro de Oliveira Salazar. Sons de outras vizinhanças.
Ontem reparei em um adolescente andando lá nos fundos e vi também uma menina mais nova brincando.
02 de abril de 2020, quinta-feira.
[Enquanto escrevo, botei uma música do álbum novo do Pearl Jam para tocar aqui, “Never Destination”.]
Logo depois de acordar, me preparei pra ir ao supermercado.
Fazia 13 dias que eu só saía para tirar o lixo. Assim que eu bati o portão da frente, senti uma coisa boa, uma dinâmica familiar, pisar no chão da rua, vestir um comportamento de rua. Percebi bem menos carros e pessoas circulando do que no antigo normal, exceto ao me aproximar do Carrefour, quando passei por gente com sacolas (elas na calçada e eu no asfalto) e por taxistas conversando na fila de carros.
Entrei no supermercado e tentei manter a distância das pessoas, um esforço às vezes frustrado pelo pouco espaço nos corredores. Senti uma espécie de irritação quando se aproximaram de mim ou esbarraram comigo. Peguei logo o que precisava e fui para o caixa. Agora tem uma espécie de vidro para dar proteção a quem trabalha na registradora. Não tinha fila e em um minuto eu já estava do lado de fora.
Fui andando pela Contorno em direção à rua Curvelo. Vi um chaveiro aberto, as Americanas, a Drogaria Onofre. Lembrei do meu remédio e entrei. Poucos clientes, vários de máscara e algumas faixas penduradas delimitando a distância a que temos que ficar dos balcões. Havia álcool em gel na entrada da loja. E frasquinhos de álcool líquido à venda por um preço aceitável. Consegui ser rápida, saí, continuei até a Curvelo, atravessei dois sinais com bastante carros e entrei no Bionatural, onde fiz minha última compra.
Voltei com chuvisco na cabeça, isso foi bom. Adoro a rua que eu desço voltando do supermercado, a Januária. No comecinho do seu quarteirão sem saída, numa parte mais alta, a gente tem uma vista linda do centro. Dá pra ver os prédios enfileirados em uma rua comprida que sobe toda vida na mesma direção da que a gente está até sumir no horizonte: é a rua da Bahia.
Entrei no portão do prédio e cumprimentei a senhora que de vez em quando vejo na janela no apartamento do térreo. Ela mandou um “tá difícil, né, minha filha” e com isso me ganhou pra conversar. Falou que mora longe e é complicado, que sobrava pouco tempo pra organizar sua própria casa. Perguntei como estavam as coisas no bairro dela e ela disse que tranquilas, que o pessoal estava quieto, com exceção dos moleques. Ri um pouco, os lekes são foda. Falou da neta pequena que estava inquieta e ligava querendo sair de casa, dizendo que a amava: “essas coisas que dão força pra gente continuar”. No final, compartilhamos reclamações sobre o presidente, nos despedimos e eu subi.
Douglas estava com um carão meio preocupado pela demora. Deixei as compras num canto e fui lavar as mãos. Aí então começou o ritual de limpeza: as coisas que podem ser lavadas vão pra debaixo da torneira, as que não podem levam muito spray de água sanitária e paninho na cara. É cansativo e faz a gente se sentir paranoica.
Uma coisa que estava me incomodando essa semana era o medo da rua que estava crescendo em mim. Por isso uma disputa entre querer e não querer sair: querer para ver como as coisas estão, para ter uma melhor medida das coisas; não querer por medo de ficar vulnerável. Acho que entendi um pouco como muita gente se sente, gente que sai pouco de casa, só anda de carro e vê notícias ruins sobre a cidade. É bom lembrar que a violência e o medo não são o comportamento inevitável nem preferencial quando a gente está perto do caos.
[Tem sido boa essa sensação de ter a música bem forte na cabeça pra escrever, afasta o excesso de reflexão.]
13 de maio de 2020, quarta-feira.
Ontem assisti à live da Ná Ozzetti com o Dante, som perfeito.
Nas duas primeiras semanas aqui, os sons do entorno chegaram arranhando mais a pele, pairando mais pesados, reconhecendo a liberdade. Vieram também os bichos. Acordei de manhã para uma cidade vazia e vi um par de periquitos verdes no fio. Também fizeram visita os anus-pretos que às vezes pousam na janela e batem de leve no vidro. Mesmo os frequentes bem-te-vi e pombas emergiram com mais força nos dias de mais silêncio. Nas duas primeiras semanas de quarentena tudo era à flor da pele, mas algo de antes voltou: não sei bem se foi o reprimido que logo se libertou ou se nós digerimos o estranho com rapidez.
19 de maio de 2020, terça-feira.
Hoje sonhei que saíamos de ônibus pela primeira vez depois da pandemia. Poucas pessoas na rua onde moro espalhadas em alguns quarteirões esperando um ônibus azul. Entramos, Douglas e eu, e acho que ficamos mais para frente porque lembro de ver a cidade pela janela grande. A motorista nos falou que antes estava rodando com quase nenhuma pessoa, mas agora estava conseguindo aumentar de novo o número de passageiros, como se eles fossem uma clientela que ela precisasse fidelizar. Reabertura. O ônibus seguiu pela Célio de Castro, entrou na Contorno e virou à esquerda na rua Sapucaí. Fazia um sol de inverno, desses com a luz branca, sabe?, que muda a cor das coisas e faz a gente fechar um pouco os olhos. Ao mesmo tempo, era um sol bem quente porque lembro de estar com preguiça de ficar sob ele. Descemos no meio da Sapucaí para trocar de ônibus e, além das pessoas que desceram com a gente, a cidade parecia vazia, silenciosa, sem comércios abertos, sem trânsito de carros. Imagina uma excursão descendo, incerta, em uma cidade adormecida. Ao descer, vimos a Serra do Curral inteira, sem nenhuma construção entre nós e ela que tapasse a vista. Fiquei espantada porque ela tinha uma cor diferente, como se esse sol branco fizesse ressaltar as curvas da sua encosta. Era também um verde mais escuro, como se ela tivesse amadurecido (não como uma fruta matura, mas como uma pessoa envelhece). Mostrei pro Douglas um pouco espantada: olha a Serra! Não sei se ele viu o mesmo.
Ontem ouvi relatos da primeira semana de reabertura na Europa num episódio do Café da Manhã. O verão chegando e as crianças podendo sair à rua, o calor batendo na porta, certa felicidade contida transbordando de levinho. Uma das jornalistas viu da janela de casa a movimentação lá embaixo crescer enquanto os sons das crianças brincando na rua rompiam o silêncio duradouro. A reabertura por lá ganha suas primeiras imagens e narrativas e elas chegam até nós, estrangeiras, como também foram as imagens e narrativas da quarentena. Por aqui é tudo outro: o isolamento, a cidade, a retomada, até as máscaras. Por isso que esse sonho de andar de ônibus e ver a Serra me pareceu um desejo: desejo de que isso tudo acabe, claro, mas, antes, desejo de que aqui as coisas não estivessem correndo como se dentro da normalidade e, com isso, a gente pudesse narrar nossa reabertura de um modo parecido ao de lá, com um quê de redenção e romantismo.
No início, quando tudo ficou mais quieto e silencioso, rolava medo, incerteza e uma sensação de urgência. Depois rolou angústia e até raiva de ver como, manhã trás manhã, um novo carro aparecia na rua aqui de casa. A Célio de Castro liga os viadutos da Lagoinha à avenida do Contorno, no Floresta, e no antigo normal tinha um fluxo de carros muito intenso nos horários de pico, além de uma fila enorme de estacionados pela proximidade com o centro. Durante muitos dias eu reparei aflita nesse aumento gradual da movimentação, mas uma hora cansei: nem as notícias são mais tão alarmantes, claramente tem muita gente trabalhando, até o Kalil diminuiu na radicalidade, realmente não dá para parar por tanto tempo, então talvez eu esteja exagerando? Faz umas quatro semanas isso.




Acho que o que me fez voltar a um estado melhor foi a incômoda sensação de estar alheia às coisas, em parte às notícias, sim, mas principalmente à cidade. Uma tarde, sentada aqui na minha mesa, eu olhei pra uma das casinhas antigas do outro lado da rua – aquela do muro baixo sem grades nem cercas onde de vez em quando um senhor ou uma mulher olham a rua e tomam sol pela manhã – e percebi que fazia tempo que eu não reparava nela, que eu não observava as velhinhas e velhinhos da vizinhança, que eu estava indiferente aos movimentos da minha rua. Me senti mal. Se antes a rua me fazia sentir muitas coisas, entre elas angústia, agora não me fazia nada. Talvez seja isso que, no geral, as pessoas sentem sobre o lugar onde vivem, um alheamento do espaço e das suas dinâmicas, especialmente do lugar público e banal como a rua. Estar alheio é desconhecer e isso traz medo. Tenho muito medo de me sentir perdida em lugares conhecidos e ignorante em espaços desconhecidos, e tenho muito medo de ter medo das cidades.
Agora há pouco (são 16h13), ouvi a buzina de algodão doce do moço do pão. Acho que fazia um mês que ele não rodava, viu. Como de praxe, ele parou nas casinhas do outro lado da rua e uma senhora saiu para comprar. Como está difícil comer pão fresco nessa quarentena, desci eu também depois de investigar na minha carteira quanto dinheiro em espécie eu tinha. Lembrei que no início da pandemia nós sacamos um pouco por precaução. Ele estava parado aqui no quarteirão, investigando se alguém do conjunto ia descer. Quando me viu, desceu o apoio da bicicleta. Ele estava de máscara e eu também. Perguntei se tinha pão de sal e quanto estava: 60 centavos cada, comprei 8. Ainda por cima, quentinhos... Comprei também um biscoito de queijo desses em meia lua, bem grande, 3 reais. Douglas fez o café em seguida.
Semana passada, Douglas e eu passamos a não mais lavar as coisas de sacolão e supermercado, e sim deixá-las quarentenando. Foi bom não se estressar tanto com isso, mas um pouco estranho. Passa a sensação de que já não nos importamos tanto.
Ontem caiu um cigarro aceso da vizinha do último andar no parapeito da janela da cozinha. Já estávamos acostumados com as bitucas que eventualmente caem na beirada ou nas plantas, mas dessa vez foi um pouco demais. Por coincidência, quando fomos tirar o lixo, vimos um aviso na porta do prédio sobre o aumento do número de objetos sendo jogados pela janela. No bloco 4 (estamos no 6), parece que houve um pequeno incêndio com a cortina e encontraram cinzas de cigarro no chão.
17 de agosto de 2020, segunda-feira.
Pensei muito em fluxos no começo da quarentena, me perguntei se a gente dá conta de viver sem fluir e até arrisquei dizer que não, que nesses tempos de distanciamento a gente tem repetido nossas circulações de outras formas. Agora essa já me parece uma reflexão boba, o movimento de carros aqui da rua está tão intenso e irritante quanto antigamente, e eu acordo pela manhã com o imperativo sonoro de uma cidade que vai ao trabalho. Parece que a gente já não se importa, se é que chegamos a formular alguma preocupação e cuidado.
Tenho estado frustrada (a frustração é estagnada?) e me afastado um pouco das coisas – da vizinhança, das notícias, das amizades. Abandonei, recentemente, o Twitter, mas dele nem reclamo porque faz tempo que se comporta como um reduto apocalíptico. Alterno entre acompanhá-lo e deixá-lo de lado, conforme o ânimo geral, desde o começo. Já do Instagram tenho tido muita raiva: me sinto aflita com a quantidade de conteúdo e ao mesmo tempo cobrada, em falta, e por isso me afasto. O único lugar em que tenho me deixado levar é o TikTok.
O melhor do TikTok é que ele é feito por gente desconhecida de tudo quanto é canto. O tom geral dos vídeos é engraçado ou prazeroso, mas pensando bem essa talvez seja a seleção que eu faço a fim de me distrair um pouco. Costumo abrir o aplicativo e passear pelo feed duas ou três vezes ao longo do dia, nas pausas do trabalho e antes de dormir. O algoritmo é ao mesmo tempo responsivo e sugestivo: pulo os insistentes vídeos em inglês, a Charli dançando e os tutoriais de maquiagem para ele entender que não me interessam; e assisto aos adoráveis vídeos de processos manuais, ao TikTok da Cunhaporanga e à trend louca da música russa Miel Pops para ele saber o que me interessa. Dou likes com muita precaução, a fim de manter o máximo de controle sobre a fórmula do meu gosto. Os vídeos que são realmente excelentes eu passei a compartilhar com algumas pessoas, e assim fui criando uma curadoria baseada na personalidade e interesses dos amigos mais próximos, das minhas irmãs e do Douglas. A Maiana recebe os vídeos com temática da Internet meio estética vapor wave. O Gustavo, que é pai da Cecília, acaba recebendo as pérolas com crianças. Minha irmã recebe os vídeos de patins, já que ela cismou que quer aprender a andar. Cheguei recentemente no Tiktok do café e passei a mandar alguns pro Arthur, que curte essas coisas de torra manual e etc. E, com o Douglas, eu compartilho os de EAD e os verdadeiramente gargalhados. Dá gosto receber longas risadas em resposta.
Ontem à noite vi o Dickson, irmão da Cunhaporanga, filmando a mãe dele torrando farinha de mandioca. A Cunhaporanga estava agachada ao lado dela que mexia a farinha em uma panela grande no fogão a lenha. Dickson, provocativo, perguntou à irmã porque ela não estava ajudando, ao que ela levantou achando graça e pegou o remo para mexer. Eles são da etnia Tatuyo do Amazonas. Estar assim à beira do fogão e observando a mãe me soa familiar.
31 de agosto de 2020, segunda-feira.
Comum nessa pandemia foi perceber como muita coisa arranjou caminho de permanecer igual, ainda que em condições tão diferentes. Voltar a ter aulas, por exemplo, me trouxe sentimentos e modos de agir muito familiares. Meu calendário, agora, é também acadêmico: ando a passos de semestre, cuidando para não pisar em prazos, e sigo com um olho no relógio e outro nas costuras, alinhavando os textos e as ideias do percurso. Lá na frente há uma linha de chegada um tanto borrada que vez ou outra me faz apertar os olhos para tentar prever melhor: a divinação atinge em cheio aquele lugar incerto entre o medo de passar vergonha e o desejo de ser brilhante. Já lidei com esses fluxos antes, mas agora eles parecem mais velozes, talvez por já não terem que atravessar prédios, salas e corpos da universidade in loco.
Voltar a ter aulas também reorganizou meu cotidiano com dinâmicas que já conheço. A cada semana um conjunto de leituras atualiza a lista de afazeres e ocupa minha mente, movimentando preocupações e expectativas. Chegada a hora da aula, de frente para o computador, sinto um leve frio na barriga enquanto espero o link da reunião no Meet e clico em Pedir para Participar. Lembra um pouco a sensação que eu tinha ao entrar na sala quando a professora ou o professor chegavam, logo depois de um tempo conversando bobagens no corredor. Quando em aula, permaneço sentada e concentrada em quem fala; penso muito muito muito sempre antes de participar e, quando o faço, um não sei quê me desorganiza; recomponho-me, faço anotações, viajo nas ideias. De certa forma, sei o que esperar das pessoas – colegas e professores – e sei também o que é esperado de mim, afinal, são modos de agir, de performar sendo estudante que fazem parte da minha vida desde 1996.
Mas caio. Não caía durante uma aula há muito tempo, desde criança quando tentava alcançar um lápis no chão sem sair da carteira. Atualmente, a queda ficou comum: toda aula tem seu alvo, a pessoa que cai em sequência. Aproveito a queda involuntária para ir até a cozinha e tomar um copo de água: “Caiu né?”, o Douglas comenta quando passo por ele na sala também às voltas com a internet ruim. Desligo e religo o roteador, vou ao banheiro e logo volto ao quarto e à postura de antes. Certa tensão toma conta do corpo, uma disciplina do ritual de assistir à aula que se mistura à necessidade de ficar dentro do enquadramento da câmera e, ainda, ao fato de passar muito tempo sentada. A turma inteira está organizada em fileiras horizontais na minha frente e eu tenho acesso aos seus rostos durante todo o tempo, inclusive ao meu próprio. A tela mostra, ininterruptamente, como nós assistimos às aulas, um filme de baixa nitidez e com atrasos, receita certa para a paranoia.
A aula acaba com agradecimentos e boa noites, ao que eu saio do Meet e fecho a tampa do notebook.
– Sextou!, brinco gritando para o Douglas, apesar de ainda ser segunda.
– Foi boa a aula?, ele pergunta.
– Foi ótima!
– Ouvi você falando de cerveja hoje… - ele brinca.
– Ah! (risos) A gente estava comentando sobre o tempo antes de começar a aula e eu falei que, pelo menos, nesse inverno eu não passei frio tomando cerveja na rua.
Seguimos com os planos da janta, mas uma sensação panóptica continua e meu rosto denuncia minha inquietação:
– É que eu não consigo parar de pensar que eu falei besteira na aula hoje, Douglas…
15 de setembro de 2020, terça-feira.





